O espelho

Século I, em um domínio do Império Romano, uma menina chora. Ver seu pai ser levado por soldados foi o pior momento de sua vida. Ela não entendia muito bem o porquê de tudo aquilo, os adultos não falavam nada ou explicavam. Mas as palavras de seu pai momentos antes de sua captura foram marcantes:

- Não se desespere, minha filha. A justiça é divina, não tente tomá-la com suas mãos. A paz verdadeira está além desse mundo, está em Deus.

Apesar de não entender, ela sabia que a fé do seu pai era o motivo daquilo tudo. Mas como seguir os ensinamentos de Cristo e dar amor poderia ser um crime? E com tudo isso como não encher seu coração com ódio? Mas se era a outra face que o Senhor pedia dela, e que amasse o próximo, era isso que ela tentaria. Ela jurou nunca fazer com os outros o que faziam com seu pai naquele momento.

Ao passar para o quarto, a menina viu um reflexo estranho em uma tigela com água, lá tinha uma outra criança. A imagem não estava muito nítida, mas a outra menina era mais escura que ela, tinha os cabelos curtos e uma bandagem branca na cabeça. As duas se aproximaram e viram uma a tristeza nos olhos da outra e se reconheceram em seu sentimento.

Como todo espelho mágico que se preze, esse também não precisava de tradução e a pergunta foi inevitável:

- O que é isso na sua cabeça?

- Ah, alguns homens jogaram pedras em mim, isso aqui é um curativo.

- Mas porquê?

- Por causa da minha religião.

- Hoje levaram meu pai por causa da religião dele – uma lágrima escorreu dos seus olhos.

- Tomara que seu pai fique bem e que ele volte para você.

- Eu também espero que fique bem com você e que sua cabeça melhore.

- Obrigada…

Quando pisca, a menina negra do século XXI, não vê mais a menina do outro lado do espelho. Ainda sem saber se tinha visto aquilo como uma mensagem dos seus orixás ou apenas da batida na cabeça, ela apenas olha para baixo e respira fundo.

As duas meninas tinham fé em um mundo acima do que vemos, que existiam forças que as protegeriam e fariam todo esse sofrimento passar. Mas, apesar disso, ambas também sabiam que aquela não seria a primeira nem a última batalha que enfrentariam, e que em suas vidas a intolerância religiosa ainda estaria presente. Só que cada uma do seu lado do espelho.

 

Para referência do que estou falando: http://www.entrefatos.com.br/2015/06/17/a-mao-dos-malafaias-e-felicianos-na-agressao-da-menina-que-saia-de-uma-festa-do-candomble/