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Capítulo 7 – Um pouco da verdade

  • Cara, sua doida! Onde passou o domingo? Te liguei um monte!
  • Ah, estava cansada do plantão de sábado.
  • E vai trabalhar hoje?
  • Nem se eu quisesse, conseguiria.
  • Que aconteceu? Estou achando sua voz muito ruim.
  • Você pode vir aqui em casa, Ângela?
  • Claro, estou indo.

Era segunda-feira e ela não se lembrava de ter comido desde que chegou em casa do plantão no sábado de madrugada. Sabia que precisava de ajuda se fosse sair daquele momento. Precisava falar com alguém.

Ter alguém com quem conversar parecia fazer tudo um pouco pior, o sentimento de maldição, de não saber onde está seu lugar no mundo. Quando estava sozinha, ou pensava que estava, não havia vergonha de usar suas máscaras, mas dessa vez era impossível. Não poderia fingir que não aconteceu e esquecer.

Quando Ângela entrou na casa da amiga sentiu vontade de chorar. O pequeno loft tinha louça para lavar, roupas sujas, comida estragada, bagunça de papeis por todos os lados. Porém o pior era ver sua grande amiga deitada e pálida na cama. Não podia reconhecer a mesma pessoa que há dois dias atrás estava rindo e brincando com ela, agora parecia apenas uma boneca de pano sem expressão. Ângela tentou engolir a sensação ruim e começou com uma piada.

  • A noite deve ter sido boa ontem, hein! E nem me chamou!

A autora sorriu um pouquinho e fez um sinal para a amiga entrar.

  • Oi, desculpa não ter te atendido ontem, mas acabei dormindo.

Nem ela acreditava nas palavras que dizia, mas a amiga sabia que era um disfarce.

  • Nossa, estou morrendo de fome, quer comer alguma coisa também?

Sem expor a situação, Ângela foi aos poucos fazendo comida, lavando a louça. Sempre conversando, dizendo que era ela que queria, dando ajuda e espaço ao mesmo tempo. Sentia que era a única coisa que podia fazer no momento. Oferecer seu ombro e esperar que a amiga em necessidade conseguisse se abrir.

Elas comeram, viram um filme, enquanto a máquina batia a roupa suja. Riram um pouco e quase esqueceram a situação enquanto viam um filme de comédia, até que a autora se sentiu mais tranquila.

  • Eu tive uma crise ontem.
  • Como assim crise?
  • Às vezes eu tenho crises nervosas e fico muito mal.

A autora levantou e pegou 3 caixas de remédios diferentes, todos com faixas coloridas na embalagem.

  • Esses aqui são os meus remédios. Todos os três, preciso tomar em situações diferentes, e…

Uma vontade de chorar veio até a garganta enquanto falava.

  • Tudo bem, não tem problema.
  • Claro que tem problema! Que tipo de pessoa ridícula precisa de remédios para a cabeça funcionar?!

As lágrimas vieram sem controle sobre a face da autora. Ângela se levantou e foi abraçar a amiga.

  • Por que eu tenho que ser assim?
  • Mas não tem problema ser assim, todo mundo precisa tomar remédio quando está doente. Vem cá, quer uma água?

Ela não sabia se aceitava a ajuda da amiga, já se sentia inútil como era, mas também sentia que precisava e dessa vez não negaria. Fez um sinal positivo com a cabeça. Pegou o copo de água e acalmou-se um pouco.

  • Pelo o quê?
  • Ah, por estar assim, quebrada.
  • Mas você não está quebrada!
  • Claro que estou, olha pra mim! Nem consegui trabalhar hoje, há 2 dias que não consigo sair de casa.
  • Para! Você está doente, precisa de medicamento. Não é a mesma coisa de estar quebrada.

A autora abaixou a cabeça.

  • Estou assim há um bom tempo, nem sei mais como sentir alguma coisa. São anos com essa maldita depressão.
  • Acho que eu que tenho que te pedir desculpas. Que tipo de amiga abandona a outra assim e nem sabe de uma coisa dessas?
  • Mas não é sua culpa eu ser assim.
  • Mas é de não ter perguntado ou falado antes.

Elas se abraçaram.

  • Mas estou aqui agora e não quero ir embora e nem te abandonar de novo.
  • Eu estou muito cansada, preciso dormir.
  • Vai, posso ficar aqui enquanto você dorme?
  • Não vai ser chato para você? Eu me sinto desconfortável…
  • Claro que não, vou colocar minha leitura em dia, pode ser? Não quero te deixar pior, só quero ficar ao seu lado enquanto você descansa.
  • Tá, eu quero sim. Não quero ficar sozinha, mas estou muito tonta.
  • Tudo bem, mesmo! Descansa!

A autora adormeceu.

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Emir olhava para o horizonte, sem focar em nada. Tinha matado um homem.

Eilena olhava para o chão, era difícil manter a cabeça ereta quando a gravidade de tudo que viu e pensou ainda pesava em seus ombros

Ambos estavam de novo em seu quarto na estalagem e tudo que conseguiam ouvir lá fora eram gritos e lamúrias. Uma cidade tinha acabado. Quem podia estava saindo dali e querendo deixar para trás tudo que fizeram, mas era impossível, as lembranças os assombrariam para sempre. Algumas pessoas ainda pensavam em ficar e reconstruir tudo, mas a maioria estava recolhendo seus mortos e chorando. Ninguém tomou a liderança, nenhum plano se fez, apenas queriam tentar sobreviver a tudo aquilo. Não haviam mais famílias ou casais, mas um sentimento coletivo de dor os unia, então muitos ficavam em silêncio, apenas fazendo o que precisavam, limpando e recolhendo os seus entes queridos.

O príncipe e a bruxa ainda estavam em silêncio e apenas quando o sol se pôs eles se olharam novamente.

  • Eu não ia te matar de verdade, sabia? – Eilena começou.
  • Não te culparia se tivesse feito. Estávamos sob a influência daquele feiticeiro.
  • Eu sei, mas acho que não conseguiria, mesmo que ele controlasse minha mente.
  • Obrigado por isso. Não te critico ou confio menos em você, ao contrário me sinto ainda mais próximo.

Nahan não sabia controlar seu rosto e demonstrou claramente o grande afeto que estava crescendo dentro de si. A bruxa tentou não expressar nada, mas corou e olhou para o chão novamente. Houve um minuto de silêncio.

  • Sinto que não fui muito útil, seus poderes são incríveis de fato, Eilena.
  • Como podem ser incríveis se eles me falharam quando mais precisei?
  • Não vi desse jeito, não estávamos em nossa melhor forma, além daquele homem ser capaz de controlar uma cidade toda. No entanto, não controlou você. Isso é incrível.
  • Não foi fácil, realmente. Mas você não foi um inútil, não diga isso. Eu nunca teria tomado essa missão se o seu desejo de realizá-la não fosse tão grande. A força que cresce em seu coração me chamou. O amor que sente pela princesa deve ser realmente grande.
  • Você sabe que não há amor.
  • Eu sei, você tinha me dito, mas…
  • Não se preocupe, não se desculpe. Salvou a minha vida e tenho uma dívida eterna contigo.

O príncipe respirou fundo e sentiu a necessidade de se confessar para a mulher a sua frente.

  • Hoje foi a primeira vez que eu matei alguém.

A bruxa virou o rosto rapidamente para olhar Nahan. Ela sentiu um misto de angústia, dor e empatia. Não se conteve e o abraçou. Sabia muito bem que o príncipe teria que matar ainda muitas vezes na vida, mas aquele momento era diferente. Saber uma coisa e realizá-la são coisas muito diferentes. Palavras não o ajudariam.

O abraço dos dois foi reconfortante e quente, fez com que um fio de esperança se acendesse em seus corações. A doce ilusão de que tudo poderia dar certo em algum momento. E mesmo que soubessem que não poderiam, a vontade era sentir aquele carinho eternamente.

E não se largaram.

Mesmo que fosse uma fantasia efêmera, não se largaram. Apenar se deitaram abraçados e adormeceram.