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Capítulo 8 – Juntando os Pedaços

A manhã nasceu inocente, como sempre faz, alheia aos problemas do mundo. Esse nascimento significava um novo momento para o príncipe e para a bruxa. Eles se olharam ainda deitados juntos e ficaram assim por alguns minutos, até que Emir se levantou para suas preces matinais. Eilena se sentia feliz ao ouvir as preces melodiosas de seu companheiro de viagem.
Os lamentos lá fora já não eram os mesmos, depois de um dia de luto, as pessoas que permaneceram na cidade das musas decidiram continuar e resistir. O trauma seria eterno no peito dos que viveram aqueles momentos, mas decidir tocar a vida era a opção da maioria, resistir. Assim como aqueles que quebraram a terrível maldição, o sentimento de resiliência era necessário.
– Vamos, coma alguma coisa – A bruxa oferecia o restante de frutas que tinham para o príncipe – vamos precisar de energia para o que temos a frente.
– O que faremos, Eilena? Precisamos de um plano melhor que simplesmente te ir entrando em cidades amaldiçoadas.
– Concordo, mas como saber quem são os aliados de Arimã antes mesmo de chegar lá?
O príncipe abriu o mapa marcado com os lugares onde deveriam ir. As cidades não eram longe e marcavam um caminho obscuro para chegar até o dragão das profundezas. Ambos olharam para o mapa e pensaram no que deveriam fazer.
– Nahan, talvez devêssemos viajar de forma incógnita, sem que as pessoas saibam que é um principe. Talvez nos vestirmos de roupas mais comuns, como simples andarilhos. Todas as vezes chegamos sem muita informação e isso nos deixou sem ação por duas vezes.
– Quer dizer, ME deixaram sem ação, não é? Você superou os desafios onde eu teria falhado.
– Não seja tão duro consigo, príncipe. Estamos atravessando esse deserto juntos.
Emir Nahan sentiu o ímpeto de pegar na mão da bruxa e acariciar, mas não o fez.
– Certo, surpresa e furtividade para nosso próximo alvo. Serão mais 2 dias para chegarmos até o próximo ponto, vou buscar provisões – disse o príncipe.
– Ótimo, vou tentar conseguir roupas para nos disfarçarmos.
Antes de sair definitivamente do quarto, Eilena tocou na mão de Emir e a beijou.
– Tenha cuidado.
– Você também.
E saíram.
um pouco antes da metade do dia, ambos estavam devidamente caracterizados de andarilhos, com seus cavalos abastecidos e prontos para sair. Nahan que sempre estivera impecável com suas vestes brancas e saif devidamente aparente, sem ser agressivo mas altivo, não se sentia o mesmo. Aquelas roupas não tiravam a altivez de seu olhar, mas quem não o olhasse poderia confundir o nobre por um homem comum. A situação evocou, no coração do jovem príncipe, o questionamento do que faria se não tivesse tamanha responsabilidade. Na cabeça da bruxa, porém, outros pensamentos estavam brotando, algo como excitação ao viver a vida de outra pessoa. Naquele momento ela não era a bruxa de família amaldiçoada, mas apenas uma mulher acompanhando um homem pela jornada da sobrevivência. E isso não parecia ruim.

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O sono da autora foi reparador, ela sentiu que não dormia por anos, e que finalmente tinha tido uma noite de descanso. Ver seus personagens superando e seguindo em frente era reconfortante. Ainda estava em dúvida se eles a estavam ajudando a se manter de cabeça erguida ou estavam assim pois ela mesma estava tentando se manter de pé. Cada dia mais queria ver o que aconteceria com a bruxa e o príncipe.
Olhou ao redor e sua casa parecia diferente, uma sensação de aconchego que não sentia há muito, viu sua amiga Ângela lendo vários papéis que estavam no chão.
LENDO!?
A autora pulou da cama rapidamente e tomou as folhas da mão da amiga.
– O quê?
– Não leia isso, está ruim!
– Como assim? São seus não são? Eu sabia que não tinha desistido de escrever!
Ela corou, não sabia como se sentiria quando as pessoas lessem seus escritos.
– Amiga – Ângela se levantou do chão e tocou na mão da autora – porquê está assim?
Aos poucos ela conseguiu tirar as folhas da mão da amiga e a colocou junto com as demais.
– Eu estava realmente adorando a história da busca pela joia perdida, é isso que você está escrevendo agora?
– É sim – disse corando.
– Quando vai escrever mais?
– Ah, eu sonho com eles, escrevo nas horas vagas. Sonhei agora mesmo.
Depois do susto ela conseguiu ver que a casa estava arrumada, louça lavada, compras feitas, lixo vazios, roupa estendida no varal.
– Você não precisava fazer isso! São suas férias!
– E quem disse que eu limpo a casa no meu dia a dia? Eu estou sempre trabalhando e fica difícil fazer essas coisas pequenas. Foi um prazer fazer essas pequenas coisas enquanto você dormia, me lembrou dos meus tempos de faculdade.
– Obrigada por tudo. Mesmo. Você está aqui em ajudando nesse momento e eu nem sei como te retribuir.
– Eu tenho uma ideia! Por que não tira suas férias para ficar zoneando comigo?
A autora pensou bem, ela tinha férias que estavam atrasadas, estava numa situação ruim psicologicamente, estava com a amiga mais querida ali com ela, porque não deveria?
– Olha só, aproveita que não é momento especial no supermercado!
Se tudo era perfeito, por quê a autora ainda evitava em sua mente?
Um misto de mania de carregar o mundo nas costas, com um eterno pavor de ser feliz. “Se eu fosse feliz assim, impulsivamente, eu mereço isso?”.
Mas dessa vez ela ouviu uma voz que estava cada vez mais baixinha em sua mente, lá no fundo ela gritou: “Claro que você merece um descanso e ser feliz!”.
– Beleza, vou ligar pro meu supervisor!

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Viajar incógnitos era uma experiência mais divertida que ambos imaginaram. Passando por caravanas e dividindo refeições ralas, sendo confundidos com um casal, caminhando e vendo outras pessoas que viviam do deserto. Era tão real que esqueciam por vezes que aquela não era sua verdade. Não eram casados, não comiam sopas ralas.
– Emir – chamou a bruxa quando estavam sozinhos – como se sente como um dos seus súditos?
– Livre.
Ela entendeu o que o príncipe quis dizer. Sentia-se mais livre também. Porém, o ímpeto do perigo que os demais passavam ainda pesava no peito da bruxa. A maldição sempre a chamava e ela sempre sabia quando alguém próximo carecia de ajuda. Mas ninguém precisava mais dela do que o homem a sua frente. Seu coração sempre chamava por ele, de uma forma que outros não fizeram antes. Talvez fosse pelo grande perigo que um reino todo estava passando, talvez por ter se apegado a ele.
Para o príncipe, no entanto, era sempre importante todas as vezes que via as pessoas comuns e suas vidas, dava um senso maior de responsabilidade nas suas decisões, essas que iam impactar todos que estavam ali. Casar com um reino que tinha abundância, muito mais que com apenas a sua princesa, era o certo para com eles.
Uma menina de no máximo 9 anos se aproximou.
– Vocês tem filhos?
– Não, pequena, não temos.
– Mas ele e você são tão bonitos. Se tivessem um filho ele poderia ser meu prometido e vocês minha família.
A bruxa e o príncipe se entreolharam e sorriram. Ela respondeu.
– Se um dia tivermos filhos, eu gostaria que eles se casassem com uma moça tão esperta quanto você.
– Mas eu não vou ter nada para oferecer daqui há pouco – a menina disse olhando pro chão.
– Como assim?
– Minha mãe está doente e eu só tenho ela. Eu precisava de alguma família que cuide de mim.
Um tom mais grave foi adicionado a conversa e a bruxa tentou fazer o olhar mais acolhedor possível.
– Eu posso ver a sua mãe?
– Tá.
A menina levou o casal até a tenda onde sua mãe estava. A mulher, muito pálida, tinha a respiração ofegante e olhar perdido.
Eilena tocou na testa da mulher e sentiu sua febre, parecia uma infecção, mas precisava entender melhor o que estava acontecendo.
– Há quanto tempo sua mãe está assim?
– Muito, não sei dizer exatamente, é difícil contar…
– Ela ficou assim depois que se uniram a essa caravana?
– Na verdade, viemos buscando ajuda que teremos na próxima cidade.
A bruxa contou os dias que a caravana tinha saído e quando chegaria na próxima cidade. A mãe nã chegaria viva se continuasse viajando daquela forma, sem nenhum atendimento.
– Como se chama?
– Rosana.
– Posso te contar um segredo?
A menina balançou a cabeça para cima e para baixo.
– Eu sou uma curandeira e sei algumas coisas que podem ajudar a sua mãe. Eu posso fazer isso?
– Você pode ajudar? Por favor, ajude a minha mãe! Por favor!
– Nahan, leve a menina lá pra fora, por favor.
– Venha pequena, vamos deixar que, er, minha esposa cuide de sua mãe.
Eilena buscou nos seus conhecimentos mágicos e sabia que poderia ajudar, mas não curar totalmente o corpo, não com o que tinha a mão naquele momento. Então começou com sua dança de mãos e frases antigas, o ritual que dava força para o corpo e fortalecia o sangue. Tirava de sua própria força para emprestar energia para que o corpo da mulher combatesse a doença.
Emir levou a menina para fora e debaixo das estrelas começou a mostrar as constelações. Enquanto apontava para cima, dava nomes que conhecia desde a idade da criança ao lado.
– Moço, o senhor acha que minha mãe vai ficar boa?
– Eu acho que sim, Eilena é fantástica e muito poderosa. Uma mulher realmente formidável. Fique tranquila.
A menina adormeceu vendo as estrelas e com esperança em seu coração.
Assim que a menina fechou os olhos, Emir foi até a tenda ver como as coisas estavam indo e no que poderia ajudar. Ficou alguns minutos observando e admirando. Eilena era ainda mais bonita ao fazer magia, ao ser altruísta com os demais e demonstrar seu poder. Ele não tinha medo, mas se sentia protegido.
O sol saiu da terra e a bruxa ainda estava ligada à mãe doente, mas em breve a caravana partiria.
– Eilena, não está cansada?
– Estou sim, mas ela ainda precisa de mais. Não posso parar agora?
– Certo, deixarei a caravana continuar e permanecemos aqui.
A caravana partiu, Emir fez suas preces e a menina o acompanhou.
Ele preparou o desjejum e todos se alimentaram, inclusive a enferma, que já tinha melhorado bastante, já sem febre. E dois dias se passaram, entre sessões de cura e descanso. Mas tudo valeu a pena, a mãe a filha recuperaram suas feridas físicas e psicológicas. E uma noite antes de partir, todos dormiram tranquilos.

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A autora despertou com uma sensação de paz, coisa que não sentia há muito tempo. Não olhou no relógio, não pegou o celular. Ficou apenas pensando em como seus personagens estavam felizes e bem, deitados juntos.
Salvar uma vida, ser significativo para o mundo ao redor e para os seus.
Que mais poderia-se esperar da vida?
Como ela poderia sentir aquilo algum dia? Sentia-se inútil por ser apenas uma estoquista com aspirações literárias.
Naquele dia, porém, nem mesmo sua mente no modo auto sabotagem ia tirar o seu ânimo: era seu primeiro dia de férias!
Muitas vezes protelou tirar férias por não saber o que fazer em casa, sozinha. Não queria gastar seu tempo enfurnada embaixo da coberta vendo coisas na televisão. Ela sempre fazia isso, mas nunca queria isso pra si. O que ela queria, na verdade, era viver a vida daquelas pessoas que ela tão avidamente assistia.
Dessa vez seria diferente, ela tinha um motivo, alguém que a estava esperando. Aquela sensação de ter alguém esperando era maravilhosa, uma pessoa que gostaria de gastar tempo com ela, se divertir junto. Não conteve seu coração de bater mais forte. Ele veio até a boca e desceu, fazendo uma onda arrepiar seu corpo, apenas ao lembrar de Ângela e seu sorriso.
Pensou no quanto tinha sentido falta dela desde que seus caminhos foram para lados diferentes. Então olhou para o celular.

Estou de pé, tomar banho e já saio

Ao levantar para ir até o banheiro ainda viu o celular tremer com a resposta:

Vai logo! Estou te esperando!

– Certo, que vamos fazer hoje? – perguntou Ângela com um olhar radiante.
– Não sei… faz tempo que eu não saio.
– Tá, vamos ver aqui na fanpage da cidade, deve ter algo interessante rolando.

Logo elas se lembraram de como era legal ir no cinema quando eram mais novas. De como riam das comédias românticas bobas e mocinhas irreais.

– Ângela você quer ter filhos?
– Que papo é esse agora?
– Ah, me toquei que a Eilena, minha personagem, pensa nisso. Essa noite eu sonhei que ela e estavam cuidando de uma mãe que tava doente, enfim, vou organizar melhor as ideias e te mando pra ler. Mas eu sei que ela estava pensando nisso.
– Não sei bem. As vezes quero, as vezes não. E depois, não penso em arranjar um pai pra esse criança hipotética.
Ângela sorriu daquele jeito que fazia a autora rir junto.

Elas foram no cinema, riram muito, comeram pipoca.
Ao sair da sessão, a autora viu algumas pessoas conhecidas na fila para entrar no filme seguinte, mas não tinha visto quem os acompanhava.
Quando enfim viu seu próprio Arimã, de carne e osso, ela travou.
Não sabia o que fazer quando suas pernas cederam, suas mãos tremiam. Caso Ângela não estivesse ali, teria caído no chão.
Não conseguiu falar nada, mas as lágrimas desciam fartas e o sangue abandonou sua face.
Não sabia o que pensar ao ver aquela pessoa ali, junto com outros conhecidos. Como acreditar?
Era um mundo de nãos, de incapacidades intransponíveis.
Ângela segurou forte a mão de sua melhor amiga e apertou.

– Vamos sair daqui agora.