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Capítulo 5 – Perdendo a Razão

Trigger Warning – Aviso de Gatilho
O capítulo contém cenas de pânico, crises de ansiedade e violência.

 

A bruxa sabia que tudo poderia desandar nessa missão. Perto dos portões da cidade, ela e o príncipe estavam bem, sem perder nem um pouco do controle. No entanto, ela ainda não sabia o que a proximidade da fonte da magia faria com eles ou o tempo maior de exposição. Não tinha tempo de descobrir também.

Durante seu treinamento, feito por sua avó e sua mãe, Eilena aprendeu sobre as artes místicas. Como a magia funciona, como se utilizar da energia que está a sua volta, como ser responsável com seus poderes e claro, a missão da família. Depois de completar a maioridade ela foi para o mundo, seguir sua vocação e já tinha visto um pouco de tudo. Porém, na grande maioria das vezes as missões eram pequenas e facilmente encaradas. Até que ela encontrou Emir. Nunca diria a ele, mas essa era sua primeira grande missão, talvez aquela que faria que a maldição de sua família fosse desfeita.

Tudo que a bruxa tinha aprendido com as grandes mulheres de sua família é que há muito tempo, elas tinham um chamado e “até que o grande mal fosse desfeito, nenhuma de nós poderia sentir o gosto do mundo”. Era isso. Quem havia jogado a maldição ou mesmo que grande mal a ser desfeito seria esse, não estava claro.

O príncipe cresceu em um palácio cheio de regalias. Tão grandes quantos os luxos que poderia usufruir, o jovem príncipe tinha deveres. Para se tornar um guerreiro e líder, tanto seu corpo como sua mente deveriam se desenvolver de forma igualitária. Todos os filósofos como os mestres vinham de longe trazer pedaços de pergaminhos para que ele lesse e aprendesse. Assim como lutadores de todos os cantos só poderiam dar seu trabalho por completo quando o príncipe os derrotasse em uma tarefa. E assim os dias de estudo, treino e meditação decorriam.

Uma vez, Nahan viu sua prometida através de um grande pedaço de seda branca. Naquele momento não puderam se falar, mas sabiam que seus destinos estavam entrelaçados. Quando soube de sua doença, partiu sem questionar, mas não tinha experiência com o mundo fora do castelo. Até que Eilena o encontrou. Nunca diria a ela, mas aquela era a primeira vez que ele batalhava no mundo real, era a grande chance de provar para todos que tudo que foi investido nele não foi em vão.

  • Emir, queria te dar uma coisa.

Eilena estendeu um colar (berloque) para Nahan.

  • O que é isso?
  • Um amuleto para tentar protegê-lo ou minimizar a influência mágica sobre você.
  • E você, tem algum para si?
  • Nessas horas é que minha maldição pode ser uma benção. Para chegar até mim, o feiticeiro tem que passar por isso – fez um sinal com as mãos que pareciam indicar uma aura.
  • Você nunca me disse muito sobre isso.
  • Esse não é o mome…
  • Espera, quer dizer. O que eu queria dizer é, se sairmos daqui você promete me contar mais sobre o que aconteceu com você?
  • Sim, prometo. Agora vamos.

Cada passo que a dupla dava em direção ao que parecia o centro da cidade, mais situações estarrecedoras viam. Sem nenhum tipo de limite, todos faziam apenas o que queriam. Uma das coisas que foi abandonada primeiro foi a higiene. Aquele lugar cheirava mal, pois ninguém ia até ali para limpar, quem gostaria de limpar as sujeiras dos demais?

Pudores de lado, não era apenas à luxúria que todos se dedicavam, qualquer pecado era livre para ser praticado, inclusive a violência.

Emir Nahan pensava no absurdo que era tudo aquilo, no porquê estar ali para salvar a vida de uma pessoa que nunca conheceu. Quem sabe o fim de seu noivado representaria a liberdade.

Eilena pensava no porquê continuar tentando ajudar as pessoas. Agora que estava no mundo, poderia sair por aí e fazer o que quisesse. A ânsia de ajudar se dissiparia com o tempo se soubesse controlar, e afinal ela tinha poder para tanto.

Nenhum dos dois parava para olhar em volta, continuavam firmes em direção à fonte.

Nahan lembrava de toda a riqueza que tinha, quantas mulheres poderia ter tido, quantas bebidas e lutas poderia ter vivido e no entanto, vivera apenas para agradar seus pais e califado. Qual o sentido de viver da expectativa dos demais apenas?

A bruxa lembrava de tudo que aprendeu com sua mãe e avó, de todo o poder que emanava de seu sangue e conhecimento. Ela poderia ter quem e o que quisesse sem muito esforço. Por que caminhar por ruas fétidas?

Mesmo absortos por seus pensamentos, notaram um grupo de seis homens semi-nus com armas nas mãos. Todos pareciam ter raiva nos olhos e furor em seus punhos. Não demorou para que erguessem suas espadas para atacar os dois.

O príncipe não esperou nenhum deles chegar primeiro, se adiantou e deu um soco com a base da mão esquerda no nariz do mais próximo, suficiente para que começasse a sair sangue e deixasse o homem chorando de dor. Com a saif em punho na outra mão, Emir atacou o segundo homem antes que pudesse se defender, ferindo o braço direito de seu oponente. Eilena se agachou e começou a sussurrar para o chão. Não demorou para que todos os animais da região, que se alimentam da sujeira deixada, começassem a subir pelos homens ameaçadores, atrapalhando seus movimentos.

Nesse momento apenas dois homens ainda ansiavam atacar a dupla a frente, porém com uma ferocidade acima do normal. O maior deles ignorava os insetos e ratos e olhava fixamente para a bruxa, indo em sua direção. Nahan tinha seus próprios problemas, quando sentiu a testa de seu atacante contra seu nariz. Que o fez perder o equilíbrio por um momento.

A bruxa se levantou e tentou se esquivar do homem alto que vinha em sua direção, quando os punhos dele fecharam ao redor de seus braços. Ela ainda viu um rato marrom morder o homem, que nem mesmo tremeu. Nahan quase não entendeu o que estava fazendo, quando empurrou sua espada para frente, sentindo a resistência do corpo do homem que há pouco o atacara.

A maldição impedia Eilena de sentir mais a pressão de seu algoz, mas entendia suas intenções e nunca permitiria que um homem a tocasse daquela forma. Ela fechou os olhos e começou a chamar mais e mais seus amigos animais. Em pouco tempo aranhas, cobras, ratos, formigas, moscas, abelhas, vermes começaram a subir pelas pernas e chegar até o torso de quem indicou, e sem cerimônias, como se não soubessem que ainda estava vivo e as podia ferir, começaram a se alimentar dele.

Apesar de ter dado a ordem, ela não podia ver o que aconteceria com o homem que ficou no chão, que ainda olhava para ela com uma luxúria sem comparação. Nahan ainda olhou nos olhos do homem que acabara de cravar sua espada, ao mesmo tempo que a vida se esvaia dele. Não o fez por sadismo, mas por não conseguir compreender o que acabara de fazer, em choque.

Eilena o tirou de seu transe quando disse:

  • Vamos!

O sangue manchava as vestes brancas de Emir e seus olhos escuros se encheram de lágrimas. As conteve rapidamente quando viu que Eilena seguia sozinha a frente. Retirou sua saif de dentro do homem e correu para alcançá-la.

A poderosa bruxa havia se transformado na pequena menina ruiva e sardenta que havia sido na infância. Ainda caminhava na cidade imunda, mas sua mente estava no momento onde viu violência pela primeira vez e se escondeu entre as pernas de sua mãe. O sentimento de querer se encolher e chorar talvez fosse maior que ela em uma situação normal, mas sabia que cada minuto que passasse ali, mais suscetível estaria. Como seria melhor não ter limites e não sentir a dor de acabar com uma vida, mesmo de alguém que tiraria a dela.

A voz dentro da cabeça de Emir, que parecia com seu mestre mais antigo, dizia: “Menino tolo! O que esperava que acontecesse ao brincar com espadas? Alguém morreria eventualmente, deveria se sentir orgulhoso de ter sobrevivido a sua primeira batalha no mundo real”. Se apenas não tivesse responsabilidade e pudesse viver sem limites como aquelas pessoas, talvez conseguisse estar feliz com aquilo.

“Aquele maldito agressor mereceu a tortura que proporcionei a ele”, pensava ao caminhar, e quanto mais caminhava para o centro da cidade, mais notava corpos no chão e pessoas se aproveitando de seus restos. Um misto de ódio, ansiedade e tensão invadiram a bruxa. Quase não conseguia raciocinar.

“Preciso estar pronto para lutar caso seja necessário”, os pensamentos de Emir se tornavam cada vez mais paranoicos e via perigos a cada passo que dava atrás de Eilena. Ao quase atacar um cadáver, teve asco de si. Queria sentar ali e chorar por tudo que sabia, por tudo que tinha visto, pelo que tinha feito. Quase não conseguia continuar.

Quando ambos viram um homem branco, pequeno e de cabelos mel de pé sobre ossadas humanas. Ele usava uma batina preta impecavelmente limpa, assim como seu cabelo, que estava arrumado como se não fosse possível tirá-lo da forma correta.

  • Gostaram do inferno que eu criei? Muitos acharam que o inferno seria um lugar onde seus pecados seriam punidos e não adorados. Como estavam errados…

O homem parecia feliz com o que tinha feito.

  • Maldito feiticeiro! Por quê fazer algo assim? – Gritou Eilena.
  • Porque posso. Preciso de outro motivo?
  • As pessoas aqui foram enfeitiçadas, mas você não tem desculpas para tal comportamento!

O vento começou a se reunir ao redor da poderosa bruxa fazendo suas roupas voarem e seu cabelo vermelho dançar no ar. Emir não conseguia tirar os olhos dela nem por um instante. Com o ápice da raiva que já sentiu na vida, Eilena juntou suas forças e conjurou um pequeno ciclone, que direcionou para seu adversário.

Ossos voaram para todos os lados, mas o homem não se moveu um centímetro. O ciclone se desfez na palma de sua mão estendida para frente.

  • Impressionante, que tem para mim agora?

O príncipe não suportou o tom de escárnio e foi para cima do feiticeiro com sua espada em punho. Porém, cada momento que se aproximava os pensamentos se embaralhavam, até chegar perto o suficiente para não se lembrar o que estava fazendo ali e cair de joelhos.

  • Achei que ao chegar até aqui vocês seriam mais difíceis de se derrotar. Uma pena. Venha até aqui, menina.

Eilena viu o príncipe se aproximar do homem e cair no chão, ela mal podia acreditar no que via. Sentia raiva de Nahan por ser inútil em um momento desses.

  • Então é isso, está com raiva? Venha, se aproxime.

Ela pensou que não tinha problema se aproximar, afinal, via suas chances de vitória diminuindo cada segundo.

  • Pegue essa espada engraçada que está no chão, por favor.

Ela se abaixou a pegou.

  • Agora, acabe com sua raiva, corte a cabeça dele. – Disse apontando para Nahan.

Elena piscou, sabia que estava com raiva, mas não queria matar o príncipe.

  • Ora, por que resiste? O que é que esse homem fez por você? Ele é apenas um qualquer que será violento como todos um dia foram. Ele não é diferente.

O olhar vidrado de Emir para frente, sem pensamentos, sem se mover. Ela levantou a espada no ar e viu o cabelo castanho dele se mexer com esse movimento, que a fez lembrar dos poucos momentos que passaram juntos. Lembrou do desejo que sentia por ele.

  • Os homens são todos violentos, Lena. – O padre usou as palavras de sua mãe para chegar até a bruxa.
  • Sim, todos são animais que merecem o abate.
  • Isso! Deixe sua raiva crescer. Você pode ficar livre dessa missão idiota e do peso da falha que virá no futuro. Não viu os corpos que ficaram para trás? Se ambos não conseguem me derrotar, que dirá Arimã.
  • Tem razão, mago. Se não conseguirmos te derrotar, nunca chegaremos a Arimã.

Eilena olhou para aquele que falava e sem ódio no olhar, desceu a espada no pescoço do homem maldito.

  • O seu erro foi achar que não quero salvar as pessoas que ajudo, feiticeiro. Não faço isso por medo da maldição ou certeza de vitória, faço por que acredito na missão.

O sangue começou a jorrar da ferida aberta e as pessoas ao redor pareceram sair de um transe, inclusive Nahan. Ao ver aquela cena e ainda com medo do que o adversário poderia fazer, Emir puxou a espada, abrindo ainda mais a ferida que já era profunda, fazendo com que a cabeça pendesse para o lado de maneira não natural.

Antes de morrer, ele ainda olhou com uma espécie de admiração para os dois.

Assim que acabou tanto Eilena como Emir se puseram aos prantos e se abraçaram.

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A autora acordou assustada. Ela tremia com o que tinha sonhado, com o sangue. Mas ainda pior era ter sentido o perigo de novo, o medo. Ela não conseguia tirar da cabeça a imagem do homem alto atacando a bruxa. Ela se viu dentro do sonho, sentiu as mãos dele ao redor de seu braço. Olhou para ver se não estavam marcados pela força que ele exerceu.

É um sonho, ninguém pode te machucar agora”.

Ainda muito apavorada, ela levantou e checou se a porta estava trancada. Estava.

Olhou em volta para ver se não tinha ninguém ali dentro. Não havia.

Foi até sua cozinha pegar uma água, olhou em volta e se sentiu tonta. Sentou-se no chão para recuperar um pouco do controle, do equilíbrio. Começou a pensar em tudo, em sua vida. Não tinha solução, nada tinha solução. Ela deveria se matar para ter um pouco de paz.

Sim, se tudo acabasse ela estaria livre, ela poderia descansar. Sempre sonhar, sempre estar preocupada, sempre ter dificuldade de levantar. Poder respirar tranquilamente, parar de fingir o tempo todo. A cabeça poderia parar de rodar.

Quanto mais pensava nisso, mais a vontade de chorar vinha forte. “Para de pensar bobagem!”, dizia a cabeça ao mesmo tempo que rodava. Foque no presente, foque no seu corpo, foque no real, foque no presente. Ela então começou a tocar no próprio braço. Mas a eminencia da crise não permitia que ela sentisse seu próprio toque. Mandava a cabeça fazer, sabia que estava com a mão sobre o antebraço, mas isso não era o suficiente para sentir. Ela então começou a passar as mãos de maneira mais agressiva na pele do braço, para mostrar que estava ali. Começou a se coçar, passar as unhas para se convencer. Nada estava adiantando. Mais forte, ela passava as unhas até que sua pele ficou avermelhada e dolorida.

Para quê viver se essas coisas acontecem? Para quê permitir que essa tortura continue?”, a cabeça ainda não conseguia parar de rodar. A autora, ainda no chão, se apoiou e começou a bater a cabeça na parede. “Por que continuar aqui se é apenas uma tortura?”.

Ao sentir a dor nos braços e na cabeça, não conseguiu conter o choro, que veio em profusão.

Primeiro foi uma espécie de alívio ao sentir as lágrimas molhando seu rosto, que logo se transformaram em desespero, pois o choro não cessava. Ao soluçar, ela não sabia se poderia continuar respirando, o intervalo que a permitia inalar se tornava cada vez menor. Seu pulmão sentiu o peso de tentar e não conseguir puxar o ar. A cabeça começou a latejar com a ausência de oxigênio.

É agora, assim que vou morrer

Cinco, dez, quinze, vinte, trinta… quarenta minutos depois ela ainda não tinha morrido. Aos poucos ela se abraçou deitada em posição fetal no chão da pequena cozinha. As mãos acariciavam suas costas, dando um pouco de força que ela precisava.

“Que fraca, frágil! Nem consegue lidar com o mínimo de stress, com um mero sonho bobo! Ridícula

Depois de meia hora desde que tinha parado de chorar, ela ainda estava no chão. Quase não conseguia pensar, apenas coisas horríveis de si mesma.

Como você quer viver desse jeito?”

Quando finalmente conseguiu levantar, ela olhou para cima da pia, viu uma faca. Ao lado viu seus remédios.

Tomou dois calmantes e deitou na cama.

Ilustração de Gustave Doré