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Capítulo 4 – A Cidade das Musas

Ainda no ônibus ela sabia que algo estava faltando, que tinha esquecido o que fazia questão de não se lembrar. A janela era uma tela, onde passava o maior filme que se podia assistir, a vida. As pessoas andavam de um lado para o outro, todos ocupados e preocupados. A autora dificilmente não via beleza, cada mínimo detalhe tinha seu encanto e maravilha. As pessoas eram um milagre ambulante, a tecnologia, as bestas de aço com pessoas em suas barrigas correndo sem parar. A tentativa de arte incansável nos muros, cores. Um galho nascendo no meio do concreto. Uma senhora idosa caminhando devagar com um carrinho de compras vazio. Tudo aquilo ecoava a constante batalha de continuar existindo. A mesma arte que pintávamos em cavernas quando não tínhamos nada, continuava nos muros da cidade. A vontade da vida nunca abandonava o ser humano.

No meio da música que a jogava para outro mundo, uma notificação no celular de mensagem instantânea:

E aí, tudo blz?

Uma vontade imensa de responder àquela mensagem e uma repulsa de ver a mesma em sua pequena tela. Uma raiva e vontade se misturavam ao digitar.

Td e vc?

Vai fazer alguma coisa hoje?

Estou de plantão.

Ah, saquei. Então, nossa, hoje estou com muito tesão.

Hmmm, sério?

Pois é, tava pensando se você podia me ajudar.

Aquela era a hora que ela sempre pensava “por que não bloqueio esse cara?”. Mas nunca bloqueava.

Manda uma foto de como vc está agora

Ela parou, ligou a câmera, viu como ficava melhor e tirou uma selfie. Enviou.

A conversa continuou, ela sabia que tipo de coisas ele queria ler e que tipo de imagens queria ver. Digitou, mandou. Sentia algum poder ao fazer isso, mas asco ao mesmo tempo. Sabia que rapidamente ia também se sentir estimulada, mas não o suficiente. Mas aquela ânsia momentânea foi saciada. Ela fechou a janela de chat um pouco antes de chegar no trabalho.

Vestiário, uniforme. Ao abrir a mochila, viu sua caixinha rosa de dias da semana, tomou na mão seus remédios. Levava uma quantidade extra para dias que esquecesse de tomar em casa. Lembrou o que tinha deixado de fazer naquele dia. Mas logo seus olhos mudaram de direção e viu seu caderno de anotações dentro da mesma mochila. Deixou a caixinha de lado, pegou o pequeno caderno, um lápis e levou com ela para o estoque.

Entre um momento e outro do expediente, ela anotava coisas do que tinha sonhado nos últimos dias. Dava mais corpo para os fragmentos, nome aos lugares sem um. Procurava no celular os significados e montava aos poucos o que imaginava que poderia acontecer a seguir. Imaginou o príncipe em carne e osso, como ele seria? Porque sonhava com a bruxa daquele jeito? Que tipo de coisas sua mente estava cozinhando e preparando?

Estava aérea ao criar junto de seu inconsciente essa história. Apenas não sabia como terminaria. E quem era Arimã?

A autora tremia em pensar em quem ele seria, imaginou quem poderia ser, mas não queria sonhar com aquilo. De jeito nenhum. Nem mesmo travestido em um guerreiro místico. Tremeu um pouco e resolveu voltar à realidade.

Durante o trabalho a autora não gostava de falar sobre sua vida pessoal com seus colegas, mas ouvia. Ouvia muito e os problemas de todos. E aconselhava, dava o ombro, prestava atenção. Legitimamente gostava de prestar atenção nas outras pessoas e poder estender a mão. Muitas vezes até tentava ajudar com mais afinco, indicar caminhos. Porém, sabia que só ouvir já fazia a diferença.

  • Mas e você, como está hoje?
  • Tudo bem.

E sorria. Estava tudo bem e sorria.

Nenhuma menção ao asco que sentia de si, o eterno medo de ser uma fraude, a vontade de deixar de existir. A crença firme que precisar de fármacos para apenas viver era uma fraqueza sem volta. Mas em dias como aquele, que tinha amanhecido perto de amigas, eram um pouco melhores. O medo sempre vinha, entretanto, quando estava sozinha.

Assim como quase a fez cair no chão quando chegou em casa. Finalmente em casa no final do expediente, sozinha e com medo.

Mas o pensamento que não saía da cabeça, onde será que estavam suas anotações?

Procurou no fundo do armário uma caixa de papelão decorada. Todas suas musas estavam ali, escritos feitos desde os 14 anos. Ao reler pensava no motivo de nunca mostrar aquilo para ninguém. Na era da internet, não ter um blog com aquelas coisas todas era um crime, mas não sabia como iam receber, quem leria e como seria criticado. Mas ela gostava, muito.

E depois, sempre pensava que estava velha para publicar poesias bobas de adolescente. Ainda se lembra de um antigo colega que disse “não gosto de versos livres, sem métrica”. Era muito pouco, mas o suficiente para que a menina de 15 anos não mostrasse para mais ninguém. E onde aquela menina estava senão dentro da mulher adulta?

Tantos escritos guardados como pornografia no fundo do armário. Estava feliz ao ler tudo aquilo, mas ainda não os publicaria e nem mostraria para viva alma. Afinal, que diferença faria se aquilo tudo estivesse disponível? Não ia mudar a vida de ninguém.

 

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O próximo lugar marcado no mapa era uma grande cidade. Apenas mais um dia de viagem, o príncipe e a bruxa estavam diante de um portão enorme e uma cidade murada. Não conseguiam saber o tamanho da cidade de longe, pois não tinham chegado a um lugar alto o suficiente.

O silêncio foi uma constante naquele dia que passaram viajando. As palavras do feiticeiro da torre da escuridão ainda ecoavam no ouvido dos dois.

A frase “nada disso é culpa sua” permeava a menta da bruxa, ela sabia que isso era sobre sua maldição, sobre todas as vezes que falhou em salvar alguém, o peso do mundo em suas costas. Será que queria dizer que aquela missão também falharia?

Enquanto Nahan se sentia um fracasso ao ter falhado em se proteger do feiticeiro. Se algo tivesse acontecido com Eilena ele não se perdoaria, tudo por não ser forte o suficiente, não ser poderoso o suficiente. Se não podia manter-se de pé diante de um igual de Arimã, como recuperaria a joia de sua prometida?

As elucubrações tomavam a mente de ambos, mas tudo pareceu menos importante que o imponente muro a sua frente.

  • Caso haja batalha, não creio que essa seria uma que poderíamos vencer.
  • Emir, que coisa chata! Por quê sempre pensa em batalhas primeiro e diplomacia depois?

Eilena levou seu cavalo a trotes em direção à guarita que se apontava no alto.

  • Boa tarde, tem estalagens para dois viajantes cansados na sua cidade?
  • Claro, senhora, abriremos os portões para que entrem.

A bruxa olhou com triunfo para o príncipe.

  • Você tem moedas para passarmos a noite? – Perguntou Eilena.
  • Ótimo, vamos precisar investigar um pouco até notarmos quem devemos interrogar sobre Arimã.

Ao entrar na cidade a bruxa e o príncipe viram de tudo que poderiam pensar sem nenhum pudor. Homens e mulheres andavam pela cidade sem se preocupar com quem estava olhando seus afazeres. Enquanto três pessoas estavam engajadas em se dar prazer e os demais observando, outros roubavam seus pertences para gastar em outro lugar. Alguns tipos de atividades nenhum dos dois viajantes reconheceu e até por isso evitavam olhar.

Tentaram entrar na primeira estalagem que viram, para descobrir que dentro não parecia menos livre. Praticamente todos usavam apenas pinturas corporais e adornos que pareciam sair da mente de algum degenerado. Nahan olhava para a bruxa sem saber bem o que dizer, pensando em sua pureza ou se aquilo lhe era familiar. Ele não gostaria de falhar com sua segurança novamente. Eilena, no entanto, já tinha visto a maioria das coisas ali, não todas, para sermos sinceros. Mas nada que sua imaginação não tivesse conjurado.

Conseguiram um quarto para passar a noite. Pedido de Nahan que fosse apenas um quarto. A bruxa não protestou, mas achou aquilo estranho e se sentiu ameaçada. Mas ela não se calaria ou seria vítima de qualquer homem.

  • Caso deseje algo, príncipe, não terá comigo dessa forma!
  • Que está dizendo, Eilena?
  • Por que pediu apenas um quarto?
  • Em uma cidade onde todos tomam o que desejam eu achei melhor não brincarmos com a segurança. O que tinha te passado pela cabeça?
  • Não é óbvio?

Emir Nahan se sentiu envergonhado de ter deixado que sua companheira de viagem pensasse daquela forma.

  • Desculpe, eu devia ter deixado clara a minha intenção antes. Conversado contigo sobre a decisão. Não cometerei esse erro novamente.
  • Sim! Se tem uma ideia que me envolva, discuta comigo.
  • Tem razão.

Ambos respiraram mais aliviados que esse impasse estivesse resolvido. Mas em suas mentes ficaram vagando no significado daquilo. Enquanto ela pensava “será que ele quer dizer que nunca pensaria fazer algo assim comigo”, ele se questionava “será que estou passando a impressão errada de luxúria para ela?”.

  • Eu também não sei se você gostaria de se juntar às festividades abaixo de nós – Ponderou a bruxa.
  • Não! – Emir disse um pouco ofendido – Sou prometido de Thuraya, não trairia sua confiança ou minha palavra.

Depois de uma pausa, Emir Nahan completou em voz baixa.

  • Não por nada menos que amor.
  • Que você disse?
  • Nada demais.

Mas Eilena tinha ouvido.

  • Você não ama Thuraya?
  • Para ser sincero, não a conheço.
  • Como assim?
  • Bom, somos realeza, fomos prometidos um ao outro há muito tempo. Terei o prazer de conhecê-la em nosso casamento.

A bruxa não sabia o que dizer, que tipo de pessoa se casa sem conhecer a outra?

  • Mas, e o amor?
  • Amor é algo que se constrói diariamente, Eilena. Não acredito que exista algo como amor instantâneo. O amor se faz com os pequenos atos e com o tempo. Tenho certeza que minha noiva é uma mulher de inúmeras qualidades e será um prazer descobrir seus segredos com o crescer de nossa intimidade.

Por alguns segundos, que pareceram durar anos, aquele diálogo sobre o amor os pegou de surpresa e seus olhos pareceram se fundir. Eilena sabia que precisava quebrar aquele momento:

  • Quer dizer que, se você foi prometido ainda criança e sempre foi fiel a esse juramento, você nunca…

A bruxa apontou para baixo, ambos sabiam que aquilo queria dizer toda a ação que encontraram antes de entrar no quarto.

  • Não. Por que faria?
  • Bom, na minha terra os homens são incentivados a sabe, desde de muito cedo.
  • Talvez os homens e mulheres que podem escolher seus amores tem esse direito. Não é o caso comigo.

Emir Nahan nunca tinha se aberto tanto com outra pessoa como naquele momento, nem mesmo seus conselheiros mais próximos sabiam daqueles questionamentos. Todos no castelo de seu pai observavam para que ele escorregasse por um momento. Mas Eilena não, ela estava interessada em saber o que ele tinha a dizer de coração aberto.

  • Vamos supor que por acaso estivesse com uma mulher entre meus lençóis mesmo sabendo que nunca poderia tê-la para sempre. O que isso faria de mim?
  • Mesmo se a mulher em questão não quisesse a eternidade?
  • E se eu quisesse? E se tivesse alguém em meus braços que não pudesse deixar escapar, pois faz parte de mim? E se chegasse a amar?

Eilena entendeu que o príncipe não se preocupava tanto em ter uma mulher por apenas uma noite e mentir para ela quanto ter alguém em seus braços e se apaixonar por ela.

  • Seu maior medo é amar, então?

Emir olhou surpreso para a bruxa.

  • Não, meu medo é amar e não poder viver meu amor.

Novamente o silêncio e o olhar. Agora era a vez de Nahan romper o momento.

  • Melhor eu te dar um pouco de privacidade, pelo menos uma noite. Estarei na porta se precisar de mim.

Sem que a bruxa pudesse protestar, ele fechou a porta atrás de si. Ela ouviu ele encostar na porta e não sair de lá até que ela caísse em um sono profundo.

O dia amanheceu na cidade e com ele o despertar dos viajantes. Emir e Eilena precisavam de respostas e sentiam que permanecer ali apenas traria problemas para ambos.

Durante o dejejum as pessoas pareciam um pouco menos dispostas a mostrar seus corpos, mas tão dispostas quanto antes a saciar suas vontades, agora era com a comida que todos se deliciavam de forma animalesca.

  • Como encontraremos uma indicação no meio dessa cidade sem limites?
  • Bom dia, Emir. Espero que ter dormido na porta não tenho sido ruim.
  • Não de todo, estou bem.
  • Eu tive uma ideia enquanto estive deitada, e se buscarmos no centro da cidade o lugar onde as pessoas têm as menores inibições?
  • Menos?
  • Sim, o feiticeiro na torre era um ser cheio de magia. Arimã, pelo que me disse, é um guerreiro terrível e transmorfo. Também fonte de magia. Esse ser que buscamos aqui também deve ser fonte de magia. E não se engane, ela influencia todos a sua volta.