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Capítulo 3 – Torre da Sabedoria

O caminho até o ponto marcado no mapa levou um dia e meio e ao chegar o clima do deserto os tinha deixado exaustos. Porém a adrenalina fez com que parte do cansaço se fosse ao olharem a torre gigantesca no meio do deserto.

Nem a bruxa conseguia entender como algo tão alto poderia estar de pé no solo inconstante do deserto. Pelas marcas do tempo nas laterais do edifício podiam notar que muitos anos haviam se passado e as dunas já haviam lambido a parte inferior e sem janelas. Entretanto ali continua de pé, impassível ao tempo, uma enorme torre.

Não havia porta de onde eles olhavam, mas escolheram montar acampamento um pouco distante e sair no dia seguinte para enfrentar seu possível inimigo. Mas pouco os dois dormiram naquela noite, pois conseguiam ouvir gritos vindo da torre, pessoas pedindo ajuda, urros de dor. Caso ambos não tivessem passado sua cota de dor e bravura, teriam ido embora naquele momento.

Entretanto ainda antes do sol raiar, ambos estavam de pé e preparados.

Emir Nahan se ajoelhou para leste, enquanto o sol despontava e fez sua prece e cântico matinal, enquanto Eilena pedia para suas antepassadas a protegerem, a bruxa não queria deixar esse mundo ainda.

  • Eu acho sua oração muito bonita, Emir – disse a bruxa no caminho.
  • Estava falando com meu Deus, nada mais justo que o faça da melhor forma que eu puder. Ele nos deu tudo que existe para usufruir, o mínimo da minha parte é ser gentil com sua criação e cantar para que minha prece pareça um bálsamo para Seus sentidos divinos.

Eilena achou essa crença em um único Deus esquisita e incompleta, mas aprendeu a muito não questionar a fé dos demais. Ela já tinha visto tantas crenças como estrelas no céu e não acreditava em apenas uma verdade.

Ao se aproximarem da torre sem janelas, eles ainda ouviam os gritos, mas agora podiam ver uma entrada pequena, quase uma fenda. Ambos se entreolharam sabendo que era por ali que tentariam entrar.

A entrada era estreita e com muita areia, que tiveram que tirar para poder passar. Ao entrar a bruxa fez um sinal e alguns pontos se iluminaram no ar mostrando um enorme vão e uma escada íngreme no canto.

As vozes agora tinham rosto e viraram dezenas de homens tateando no escuro e gritando por ajuda. Nenhum deles se encontrava, ao quase se encostar, logo mudavam de direção. Nenhum parecia conseguir ver um palmo a sua frente, apesar da iluminação provisória. Não pareciam se ouvir também, apesar dos gritos profundos e intensos.

  • Estão surdos aos apelos uns dos outros, tampouco se veem. Que tipo de homens são esses?

Nahan sentia um enorme incomodo ao ver aqueles homens incapazes de reconhecer o seu ambiente, mas sabia que nada podia fazer quanto a isso. Já Eilena já tinha visto tantos homens incapazes que nem mesmo se assustou. E foram para a escada.

Os pequenos pontos de luz que a bruxa criou os seguiam onde fossem, então logo seus olhos já estavam mais acostumados com a ausência de iluminação externa, deixando a torre bem menos aterrorizante. Os gritos também foram ficando de lado e pareciam mais distantes, apesar de agora estarem dentro da edificação, não havia dúvidas que era um local de grande magia.

A escada parecia não ter fim, mas quando finalmente chegaram ao piso superior era outro mundo, mergulhado em escuridão. As luzes não chegavam até ali, nenhuma magia, tocha ou artifício humano conseguiria iluminar aquele espaço. No entanto a bruxa e o príncipe viam seu interlocutor muito claramente a frente, ele parecia ser tão parte de escuridão que era tão visível quanto ela.

Usava um turbante e uma máscara brancos com espaço para os olhos totalmente pretos, sentado na posição de lótus apenas suas túnicas e muitas camadas de tecido branco conseguiam se destacar. O lugar era imune ao tempo e nenhum vento se sentia, porém, suas vestes balançavam como em uma ventania.

  • O que querem?
  • Eres aliado de Arimã?

Nahan não podia ver, mas Eilena estava com a mão em frente ao rosto em sinal de desaprovação. Ela gostaria de ter sido bem mais polida.

  • Não sou aliado, mas podaria dizer que sou um igual.
  • Ele levou algo que era de minha noiva e desejo de volta.
  • Essa jornada é inútil, jovem príncipe. Caso a joia esteja com Arimã deve buscar algo para substituí-la, pois já está contaminada com a maldade de seu ladrão.
  • Nunca! A joia, fonte de vida para minha noiva é sagrada!
  • Mas que rapaz sem modos! Não é problema meu se não acredita em mim. A joia já devia estar um pouco contaminada para que o guerreiro com armadura de dragão a pudesse pegar. Arimã é proibido de tocar em qualquer uma das posses de seu irmão, nada que seja sagrado.
  • Quer dizer que Thuraya estava maculada?

Emir tocou no cabo de sua espada, querendo reparar a grande injúria que havia sido proferida contra sua prometida. O homem da torre apenas riu alto.

  • Acha mesmo que pode tocar sua espada e minhas palavras irão sumir?

Eilena não sabia o que estava acontecendo com Nahan, mas ouviu seu gemido de dor e quando buscou onde estava seu companheiro, sentiu apenas o ar. Emir estava no chão, sentindo o peso da escuridão, sem poder se mover.

  • Grande mago da torre do deserto, perdoe meu companheiro de viagem. Ele ainda não faz ideia do tipo de poder que está lidando aqui. Reconheço sua superioridade e peço a gentileza de não matar o príncipe insolente.
  • Muito bem, bruxa amaldiçoada, concedo seu desejo pela gentileza de não ter tentado usar seus poderes em mim. Faz bem ter respeito por aqueles que podem te ferir.

A dor de Nahan parecia ter passado, pois seus gemidos pararam, porém, Eilena conseguia sentir que ele ainda estava no chão.

  • Poderia nos ajudar em nossa missão? Precisamos encontrar Arimã e devolver a vida da princesa Thuraya, por favor.
  • Já que pediu com respeito, posso lhes dar um conselho, que é melhor que indicar o caminho para Arimã. O que procuram não está nas mãos do vilão, mas sim com quem controla a história. A joia perdida foi maculada e precisam encontrar outra forma da menina ser salva, pois quando a salvarem sua vida não estará mais exposta. O caminho dos dois leva a Arimã, entretanto. Apenas quando conhecerem um possível fim é que estará claro o que estou falando. Continuem andando e seus caminhos os levarão onde precisam ir, não onde querem ir, que é mais importante.
  • Obrigada, grande feiticeiro. Estou em débito contigo.
  • Eilena, não se esqueça de uma coisa, nada disso é culpa sua.

A luz do sol de repente preencheu os olhos de Eilena e Emir, que se viram cegos por alguns minutos. E quando conseguiram ver, finalmente, estavam no meio do deserto, mas a torre não estava mais lá. Apenas seus cavalos, itens mágicos e uma sensação de vazio, de não terem alcançado o que tinham vindo buscar.

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A cabeça da autora parecia querer mata-la. O peso, tontura e dor faziam a possibilidade de bater a cabeça na parede uma boa ideia. A tontura era a pior coisa de todas, “Pare mundo, por favor. Só quero levantar!

Notar que não estava em casa e na sua cama foi um segundo momento, talvez por não ser um lugar tão estranho assim. A confusão fazia a autora pensar se tinha voltado no tempo, mas era apenas o quarto de Ângela, idêntico de como se lembrava, exatamente como era quando dormia ali, dividindo confissões com a melhor amiga. Mas a vontade de vomitar foi maior, e ela saiu correndo para o banheiro que também conhecia.

Lavar a boca, o rosto, as mãos. Pentear e prender o cabelo cheirando a cigarro. Ela queria ir para sua casa.

  • E aí, dorminhoca! Pronta para o nosso super sábado? – disse Ângela assim que a amiga entrou na cozinha, enquanto fazia ovos mexidos.
  • Eu só quero água ou refrigerante, pra ver a essa ressaca passa…
  • Tem na geladeira. Sabe onde estão os copos, não?
  • Sei sim, impressionante como as coisas não mudaram muito por aqui.
  • Ah, meus pais viajando, apartamento montado, quem não queria passar as férias assim?
  • ..
  • Mas então, preparei várias coisas pra hoje!

Foi quando tudo atingiu a autora, ela precisava trabalhar hoje!

  • Eu preciso ir! Tenho que trabalhar de tarde ainda.
  • Fica para almoçar então. Ou seja, daqui há pouco. Toma banho aqui, eu te empresto uma roupa.
  • Nenhuma roupa sua caberia em mim!
  • Cara, damos um jeito! As roupas da minha mãe também estão aqui. Vai! Faz quanto tempo que não temos um dia assim?

Ela não se lembrava da última vez que tinha passado um dia agradável entre amigos.

  • E depois, eu chamei o Rafa para vir aqui!

A autora quase derrubou o copo que estava servindo refrigerante.

  • O Rafa? Por quê?
  • Ué, éramos uma turma e eu sei que você tinha uma quedinha por ele.
  • Se por quedinha você quer dizer ser incapaz de dizer nada coerente perto da pessoa, sim, era uma quedinha.
  • Então, vamos nos ver todos.
  • Não… mas…

Ela pensou que ele a acharia que feia, que tinha envelhecido e engordado. Quando era adolescente, mesmo que nunca se sentisse, a autora era magra e bonita, dentro do padrão. Coisa que hoje apenas fazia inveja para ela em fotos. Ela também sabia que o Rafa tinha se casado, através das redes sociais, e que estava com um filho pequeno. Enquanto ela, bem, estava lá, lutando para apenas sobreviver.

  • Acho essa uma ideia muito ruim. Não vou me sentir bem em ver o Rafa.
  • Ora, mas porque?
  • Ah, eu envelheci… não me pareço nada com quem eu era.
  • Que bobagem, você é e sempre foi linda, amiga!
  • Nas redes sociais ele parece ter uma vida perfeita.
  • Mas todos parecem ter uma vida perfeita nas redes, menos gente que não posta nada, tipo você sabe quem!

Ela sabia que Ângela estava falando dela.

  • Vem, vamos comer, tomar um banho e começar a pensar no cardápio do almoço.

Assim que terminou de tomar banho e ainda enrolada na toalha, a autora passou os olhos pelas fotos de todos eles, a turma, que estavam nas paredes e em cima dos móveis do quarto de Ângela e ficou um tempo a mais na foto de último dia de aula delas. Todos os amigos pareciam tão animados, tão esperançosos. Tudo aquilo deu um embrulho em seu estômago e a fez ter vontade de chorar. Até prestar um pouco mais de atenção, aqueles olhos.

A autora se aproximou da foto e reconheceu os olhos do seu sonho, o feiticeiro na torre, era o Rafa, era ele. “Caramba, estou viajando! Como assim? ” Mas ela sabia que era ele, envolto em trevas, com os homens gritando. A mesma sensação que se tem quando se sabe uma coisa nos sonhos, apesar de não parecer. Ela tinha certeza que era ele.

“Será que eu estou inventando tudo isso só pela ansiedade de ver o cara de novo?

Ela sempre sonhava, praticamente todos os dias. E algumas vezes criava histórias e continuações com seus pensamentos enquanto dormia, mas agora, a jornada da bruxa e do príncipe pareciam muito mais reais que seus sonhos normais. Ela se lembrava de tudo quer os dois passavam. Sentia o cheiro que eles sentiam.

Toc, toc.

  • Quer ver uma roupa da minha mãe?
  • Só um pouco.

Ela precisava sentar na cama. “Mas e daí? Quem é esse cara que pode me fazer ficar tremendo? Ninguém deveria ter esse poder sobre mim! ”

  • Pode abrir a porta, vamos procurar uma roupa sim.

Cozinhar perto da amiga, ouvir músicas, rir de piadas. A autora não sentia aquilo há tanto tempo que foi intoxicante. Porém, quando a campainha tocou, o peso e a escuridão voltaram para seus ombros. E ao ver Rafael ali, de pé na porta, a falta de palavras baixou em seu coração. Ângela e Rafa se cumprimentavam e se abraçavam como velhos amigos que eram, mas a autora não teve a desenvoltura de comportamento. Sentia um leve tremor.

  • Oi, Rafa!
  • Poxa, nem parece que moramos na mesma cidade! Precisou a Ângela vir aqui para a gente se ver. Como você está?
  • Tudo bem, tudo bem. Ah, eu vi a foto do seu filhinho, muito lindo.
  • Poxa, obrigado.

Silêncio.

  • Bom, Rafa, vem aqui um pouco na cozinha, enquanto a gente termina a comida!

Enquanto falava, a autora via como o Rafa tinha mudado. Não fisicamente, ele continuava lindo, mas ele sempre foi o cara que mais admirava no mundo e enquanto falava, grande parte daquela magia acabava. “Nossa, mulher grávida é muito chata”, “Bebês são muito chorões”, “ainda bem que vocês me chamaram aqui hoje, não aguentava mais ficar em casa”, “Não entendo como a cabeça passa por lá”.

Cada frase que ele falava parecia uma onda de areia batendo em sua torre no meio do deserto, mas dessa vez ela tinha certeza que ela cairia.

Ao fechar a porta, quando Rafael saiu, Ângela e a autora riram muito.

  • Tá vendo! Que bom que você não acabou com esse cara! Que babaca!
  • Nossa, nem me fala, nem tinha notado como ele mudou.
  • Mudou? Locona, ele sempre foi um pouco babaca e sempre se achou pra caralho. A gente que mudou e evoluiu, ele continuou igual.
  • Será? Mas eu achava que ele era tão profundo e sábio.
  • Ah, mas isso era que você tava apaixonada. E agora você consegue ver como ele realmente é.
  • Bom, o amor então não é apenas cego, mas surdo também!

Ambas riram e se abraçaram muito ainda, antes dela sair para o trabalho.