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Capítulo 1 – Onde notamos que é tudo um sonho

A bruxa caminhava sobre a areia farta e clara do deserto.
O vento batia em sua túnica verde e seus pés descalços como uma tempestade, mas não a tocavam. Nada podia tocá-la. Apenas um excelente observador notaria a fina camada de nada que envolvia o corpo da bruxa e a separava do resto do mundo. Ela era amaldiçoada, e assim tinha sido desde o nascimento.
As mulheres de sua família tinham esse fardo para carregar, viver num mundo que não podiam tocar ou sentir. Nenhuma delas podia sentir o sabor de seu alimento, o vento em seus poros, o calor de um abraço, e assim seria até que a dívida estivesse paga. E elas pagavam vagando pelo mundo ajudando qualquer um que precisasse delas.
A bruxa, assim como sua mãe e a mãe dela, sentia aqueles que careciam de grande auxílio e migravam onde seu coração as levasse.
Porém estava há dias no deserto e ainda não tinha encontrado seu alvo.
Ela se abaixou, pegou um punhado de areia, sussurrou palavras que ninguém mais saberia dizer e assoprou.  O fio de areia tocou o chão formando uma serpente de olhos esmeralda.

  • Vá, minha querida e encontre aquele que procuro.

A cobra dourada seguiu sibilando pelo deserto com a bruxa a seguir.
Depois de pouco mais de três horas a pequena serpente chegou até um oásis, onde uma pequena tenda estava armada à sombra de uma árvore e um cavalo amarrado por perto, descansando do sol.

  • Obrigada – disse a bruxa.
  • Posso deixar de existir agora? – Replicou a criação com angústia.
  • Claro que sim! Vá, seu propósito foi alcançado e terá seu merecido descanso.

E com um acenar de mão, ela se foi sem nunca ter sabido o que era um nome.
Com cuidado, a que buscava um aflito prosseguiu com cautela. Ela sabia que aqueles que precisavam de sua ajuda nem sempre estavam dispostos ou de bom humor.
Não quis entrar sem ser convidada, por isso chamou:

  • De quem é essa tenda?

Não muito tempo depois, a ponta de uma espada brilhante saiu da tenda antes do homem da pele cor de mel.

  • Quem deseja saber?
  • Meu nome não é importante, pode me chamar de Eilena, ou bruxa. Muitos me chamam apenas de bruxa.

Ainda sem baixar sua saif, o homem olhava com curiosidade para o cabelo vermelho da mulher, assim como sua tez branca como o leite. O verde dos olhos se igualava ao vestido longo e esvoaçante. Tudo na bruxa destoava do que eram as mulheres que o príncipe já havia encontrado. “Uma feiticeira, com certeza” pensava em seu íntimo.

  • Eu sou Emir Nahan. Chegas com que intenção, bruxa?

Nahan não conseguia ver maldade na mulher a sua frente e por isso mesmo baixou sua espada, porém manteve a mão em sua bainha.

  • Estamos longe de tudo. Como chegou aqui sem cavalo ou camelo?
  • O senhor pode me oferecer água antes de mais nada? Apesar de não sentir o frescor, ainda posso ficar desidratada.
  • Claro, por favor.

De pé, ainda fora da tenda, o nobre príncipe ofereceu seu cantil para a moça e esperou.
Até ali, a bruxa não esperava nada diferente. Ela era acostumada a chegar em momentos estranhos na vida das pessoas, a enfrentar primeiras impressões até piores que aquela. Até ali, estava indo tudo bem. Afinal, a paisagem não era das piores, Emir era realmente belo e exótico. Ele não tinha marcas ou rugas na pele acobreada, a barba por fazer dava um tom natural para o rosto másculo e nariz aquilino. Os olhos castanhos eram como a floresta no outono e tão honestos quanto o de uma criança. Ela nunca tinha visto um homem como ele.

 

  • Emir Nahan, entendo que você precisa de ajuda para um grande problema e eu estou aqui para servir como for melhor.

O que fazer diante daquela frase?
“Se é mesmo uma bruxa, como confiar em suas palavras?”, pensou antes de tirar completamente a mão de sua arma.
Aos poucos a tensão desse primeiro encontro passou e os dois estavam um pouco mais calmos. O príncipe ponderou:

  • Bom, acredito que se desejasse matar-me com poderes sobrenaturais, já o teria feito. E se poderes sobrenaturais não tiver, não acredito que convidá-la para entrar fosse me causar um mal pior do que o que me aflige no momento. Acredite, senhorita, aprendi há muito tempo não duvidar do poder que as mulheres possuem quando querem.
  • Que bom que não duvida de mim. Podemos começar melhor que a maioria das pessoas que eu ajudo.

Nahan abriu a tenda e permitiu que a bruxa entrasse.
Tapetes, duas almofadas grandes e muitos mapas espalhados pelo chão era o que ela via. E muitas cores. Tantas que seus olhos não podiam se costumar, todos os espaços preenchidos com tecidos e tapetes, não havia espaço vazio, como se o príncipe quisesse preencher algo além da tenda. A bruxa ainda ponderou como ele podia ter aquele luxo todo em pleno deserto, quem havia instalado todo o aparato para seu conforto e quem mais estaria ali.
Sem se importar com os questionamentos da bruxa, o nobre príncipe apontou para uma grande almofada no chão, ao mesmo tempo que se sentava em uma de frente para a dela. Ao lado de onde sentavam havia um narguilé grande, que preenchia tudo com um aroma inebriante e doce.
Logo ao se sentar, Nahan serviu uma pequena dose de uma bebida dourada para ele a para a bruxa, como se tudo aquilo fizesse parte essencial da conversa que estavam para iniciar.

  • Como soube que estava aqui e precisava de ajuda?
  • Algo em mim, uma maldição alguns diriam, me leva onde mais sou necessária. E você deve estar precisando mais que todas as pessoas do resto do mundo. Não andei pouco para chegar até aqui.
  • O que sabe sobre aqui?

Nenhuma das perguntas de Nahan eram inquisidoras, todas feitas com uma certa doçura na voz, como um questionamento válido. Porém, seu olhos traduziam as inseguranças que ainda tinha de se expor.

  • Não muito – disse Eilena bebendo do pequeno copo que Emir lhe oferecia.

Aquele momento era sempre decisivo para as pessoas que aceitavam a ajuda da bruxa, o momento limítrofe, entre aceitar e não. Emir Nahan cedeu e decidiu confiar.

  • Sou filho do Califa Nahan, prometido da princesa Thuraya, que se encontra enferma. – Naham não apresentava afeto ao dizer isso – O terrível Arimã levou a joia preciosa que mantinha a saúde de minha noiva. Agora é meu dever recuperá-la. O tempo dela é curto e todo seu reino pode perecer caso ela morra.
  • Como assim?

Nahan olhou para o chão ao pensar em sua noiva e seu povo.

  • O reino é ligado a vida de Thuraya. Há muito, seu nascimento marcou a renovação de toda a terra, que era infértil antes. Ela precisa se casar e ter descendentes para que tudo continue florescendo. Os antigos contam que nada havia naquele lugar e que nenhuma caravana passava por ali. As ondas de areia enganavam os viajantes. Uma força maligna mudava as estrelas de lugar e fazia com que família se voltasse contra família. Então uma caravana se perdeu e uma das mulheres estava para dar a luz. Ao nascer, a simples presença de Thuraya afastou o mal e tudo floresceu. Mesmo agora, a terra parece murchar com a previsão de sua morte.

A bruxa terminou de tomar a bebida que tinha sido servida a ela, tudo em um gole só. Ela podia notar a gravidade da situação e como Nahan se sentia responsável, apesar de não sentir amor em sua voz.

  • Então o tempo não é nosso aliado aqui, certo? O que estamos esperando?

Emir Nahan mostrou os mapas para a bruxa:

  • Esgotei os lugares onde geralmente o guerreiro Arimã se escondeu, não sei onde pode continuar minha busca.
  • Aí que eu entro, acho que tenho um feitiço que pode nos ajudar nisso.

 

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Ela acordou com vontade de ser alguém, de fazer alguma coisa realmente importante com a sua vida. Porém, ela não era boa em nada, suas frases eram truncadas para ser uma escritora (coisa que sempre sonhou), sua mente não funcionava direito para ler ou para aprender mais. Seus pensamentos eram tortos.
Toda vez que tentava ler no ônibus, sua cabeça quase explodia, e ela quase vomitava. Isso quando as palavras não saltavam das páginas e resolviam dançar e fugir – Voltem já aqui! Os lugares de palavras são nos livros, não nos olhos. – Não ajudava muito pedir nada para palavras.
Ela se lembrava que não era assim mais jovem.
Quando adolescente, amava ler de tudo. Desde criança aliás. Quando foi que isso mudou?
Aquilo que fazia ela ser apaixonada por escrever, não fazia mais tanto sentido. Por quê continuar a escrever, então? Todos esses pensamentos e mais alguns outros sobre pertencer ainda antes de levantar não eram um bom sinal.
“Vou começar uma história”, pensou. Mas porque ela seria importante? Ela teria que ser verdadeira.
O nome se veria depois, quando tudo já estivesse organizado, revisado e limpo. Tudo isso feito por outra pessoa, já que ela não conseguia mais ler.
Algo de comer, remédio e depois o dia.
A ânsia/edade que o remédio trazia era quase a única coisa que não a deixava voltar para a cama. Ânsia de viver. Algo tinha que acontecer senão… Coisas poderiam acontecer.
A cabeça dela nunca tinha muito claro que coisas seriam essas, o aluguel talvez.
Era uma vez um monstro que visitava as casas das pessoas pobres das vilas para se alimentar do pouco dinheiro que elas tinham. Seu nome era Aluguel.
Os minutos se passavam e apenas a ansiedade não era o suficiente para terminar de se arrumar e ir trabalhar. Cada passo, cada respiro, cada bater do coração parecia querer parar. Ela queria morrer todo o tempo. Mas ninguém sabia.
A cabeça doendo, o corpo tonto e tremendo. Mas era assim todo dia, então não fazia sentido reclamar.

  • Estou tonta de novo – pensou em voz alta e falando para ninguém.

Na verdade, se tivesse alguém ali, ela não falaria nada. Por que encher o saco de novo?
O melhor era voltar a dormir, isso, dormir.
Talvez quando acordasse, estaria melhor.
Ou não.
E apenas poucos minutos foram o suficiente para sonhar com desertos, príncipes e bruxas.
Mas o trabalho chamava, assim como a dor de cabeça.
O sonho tinha ajudado a lembrar aquelas coisas que ela sempre pensava, em seus mundos de fantasia intermináveis.
Que mal faria um pouco de fantasia?
A autora achava que a vida era como uma estrada onde a verdade sempre está a frente, onde estamos incompletos o tempo todo, esperando um futuro melhor.
Vou emagrecer depois
Vou estudar amanhã
Quem eu serei em um ano?
Quem serei em cinco anos?
Quando eu me aposentar, poderei enfim descansar.
Por isso mesmo pensou: “Para quê viver agora? Por que viver?”
Quando uma mensagem a tirou do redemoinho mental.
Estou na cidade, quero te ver
Ela não conseguiu evitar o sorriso ao pensar na amiga que tanto tempo não via. Por segundos vieram lembranças das duas conversando juntas e se divertindo, quando eram mais jovens. A faculdade, o tempo, a vida as levou para caminhos diferentes. Mas as duas estavam ali e queriam se ver.
Ela pensou em chamar sua amiga para vir em casa, mas tudo estava muito bagunçado e sem nada para servir. Uma agonia a trouxe vergonha e raiva de si mesma.
“Se apenas eu conseguisse levantar mais cedo, poderia fazer tantas coisas! Caminhar, lavar a louça! Eu pareço uma criança, incapaz”

A vontade absurda de chorar foi contida pelo antidepressivo. Era uma daquelas vezes que se começasse, seria difícil parar.
Tudo isso antes mesmo de responder.
Que bom!! Tb quero te ver. Onde?
A autora olhou para a pilha de roupas e pensou em quê vestir, ainda evitando olhar para a porta do banheiro e a terrível previsão de tomar banho. Ela respirou fundo, colocou uma música no celular para se animar e ligou o chuveiro.
Poxa vamos naquele bar que a gente sempre ia?
Deixar a água correr pelo cabelo acalmou tudo dentro dela.
A primeira coisa foi olhar no celular e responder.
Pode ser. Vai ser legal! Que horas?
Ainda conseguiu e trabalhar, talvez com a certeza que hoje veria uma amiga.