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A lista

 

Era uma tarde monótona no cerrado quando olhei para o sótão do meu pai, resolvi pegar uma escada e ver o que tinha lá. Com 14 anos eu peguei uma revista do Batman pela primeira vez na mão.

Talvez não fosse a primeira vez que tinha uma na mão, afinal, elas viviam espalhadas por aí pela casa, mas era a primeira vez que eu lia. E tudo mudou daquele ponto em diante, eu tinha sido convertida para o mundo dos super-heróis.

Naquele momento eu não sabia que aquilo era “para meninos”, mas o fato de ser histórias de super-heróis e não super-heroínas já devia ter me dado uma dica. Mas, sabe, quando temos 14 anos, aquilo não nos importa. Só conseguia ver as cores, a ação, o senso de justiça e vingança; tudo aquilo falava diretamente comigo.

Já com 15 fui conhecer os X-Men, com 16 li Constantine e com 18 me apaixonei por Sandman.

Era 1999 quando decidi ser quadrinista. E achava lindo todo aquele mundo de mitos e vilões, um mundo onde eu poderia criar as histórias mais loucas e ainda sim fazer sentido.

No mesmo ano, muito distante de mim, uma fã de quadrinhos, assim como eu, pensava em uma lista. Uma cena em especial tinha chamado a atenção dela, onde a namorada de um herói tinha sido brutalmente assassinada e colocada em uma geladeira para que ele a encontrasse. A lista era sobre as mulheres que tinham sido mortas ou desempoderadas como plot para que o herói sofresse ou tratadas como coadjuvantes. E todo esse movimento foi chamado Women in Refrigerators ou “Mulheres em Geladeiras.

Ela ainda enviou essa lista para vários autores para saber suas opiniões, tudo de forma despretensiosa. Mas o impacto que a lista teve não foi nada menos que um tapa na nossa cara.

Pensem naquele início de internet, onde discutíamos certas coisas em fóruns, e foi ali que encontrei o lado misógino dos quadrinhos pela primeira vez. De repente comecei a ler os meus amados quadrinhos com outros olhos. Vi claramente como alguns clichês eram usados e como outros autores os desconstruíam.

Ainda queria ser quadrinista, mas não aquela que perpetua as mesmas histórias de sempre. Gail Simone não sabia, mas ela ajudou a mudar algo dentro de mim.

Quando peguei o primeiro quadrinho com o nome dela na capa, fiquei exultante, ela era roteirista também, e eu poderia ser como ela. Dizer que a vejo um exemplo seria uma redundância. Naquela época eu ainda queria muito escrever para a DC e ela estava lá, escrevendo várias coisas e tocando Birds of Prey, em uma das minhas fases favoritas!

Já era 2009 quando lancei o meu primeiro quadrinho, enquanto ela estava escrevendo Mulher Maravilha, e em uma mesa sobre mulheres nos quadrinhos, a primeira de muitas que participei, me perguntaram sobre a lista. Olhei para a minha protagonista e fiquei feliz de não ser aquele tipo de autora. Pessoas morriam na minha revista, mas eu tinha começado a me desconstruir como mulher, e me encontrar como feminista.

Muito tempo se passou desde então, e eu continuei fazendo quadrinhos no Brasil, a maioria de forma independente, tentando o tempo todo desenvolver aquela semente que foi plantada em mim, eu continuaria reproduzindo os mesmos paradigmas da indústria que cresci lendo, ou tentaria ser diferente?

Hoje, depois de ter a minha própria graphic novel e ter escrito uma quantidade boa de histórias que me orgulho, me encontro sendo chamada para participar do mesmo evento que a Gail Simone estará como convidada. E faço o paralelo que é inevitável: duas roteiristas de quadrinhos, fãs de super-heróis ainda acreditando e produzindo histórias doidas de ação.

Ela nem sabe quem sou eu, e talvez nem faça ideia da influência que teve em outras roteiristas pelo mundo, mas estou esperando muito para que saiba, para poder falar nem que seja um pouco sobre exemplo e representatividade quando nos vermos.

De certa forma esse foi um jeito de andarmos juntas, talvez isso seja aquilo que chamam de sororidade.

 

UPDATE: Foi lindo!